18 de set de 2017

calma

às vezes ela passa pelos olhos, aproveitando o momento em que eles param para acompanhar um desfile de nuvens no céu, ou quando grudam num livro, esquecidos de outras paisagens, encantados pelas palavras. mas é pelo nariz que ela entra e se espalha, espaçosa, preenchendo todos os cantos com um ar mais cheio de ar. os pensamentos então giram em câmera lenta, o peito alarga e o coração espreguiça, batendo no compasso de uma felicidade quieta, que se anuncia sem disparos.
calma é assim: uma música silenciosa que muda o ritmo de tudo dentro da gente.

21 de ago de 2017

nuvens

Às vezes eu consigo ver um pensamento sendo pensado.
É só prestar atenção: as nuvens aparecem no alto da cabeça da pessoa.
Tem gente que olha pra cima e fica revirando os olhos, tentando ler o que está dentro da nuvem. Também tem quem morda a boca, no cantinho, e daí os olhos disfarçam, fingindo que estão olhando pra outra coisa e que não tem nuvem nenhuma ali.
É difícil adivinhar o quê o pensamento está pensando, mas dá pra saber o tipo. Quero dizer, quando ele é triste, a nuvem faz sombra, os olhos ficam apagadinhos, sabe? De vez em quando me confundo, porque o pensamento-preocupado também faz o maior nevoeiro. A diferença é que, nesses casos, os olhos piscam muito.
E tem o pensamento raivoso. Dá até medo quando vejo aquelas ondas da nuvem-tornado se formando. Dependendo do tamanho da raiva, a cabeça até treme. Se a nuvem é escura, sai de perto, a pessoa pode virar tempestade de uma hora pra outra.
Ah, também tem nuvem levinha, quase transparente. Esse tipo vive em volta da cabeça de quem não é desligadão. E também aparece quando a pessoa não tá prestando atenção em nada. A professora sempre diz isso, que eu vivo com a cabeça nas nuvens. Taí a prova, ela também vê pensamentos!
Pra dizer a verdade, acho difícil não ver nuvem nenhuma. Fico até admirado quando vejo uma cabeça limpinha que nem céu azul.   

12 de jun de 2017

personagens

(…) Sou o brinco conversando com a orelha, o gato que narra sua vida dentro de um apartamento, a menina que observa tudo no primeiro dia de aula, tentando encaixar a franja no rosto do novo professor de química; também sou o adolescente apaixonado pela garota mais popular da escola, e a mulher que chora a morte do pai. Pode ser só uma emoção, a mesma idade, um gesto, uma lembrança ou até um detalhe banal, como a cor dos cabelos. Ainda que nada identifique o autor, sempre há, em cada personagem, algo que o reflete, nem que seja o seu avesso, ou apenas o desejo de ser, viver ou pensar de um modo totalmente diferente do seu".

*trecho do texto que escrevi a convite da crítica e ensaísta Beth Brait, para seu livro "A Personagem"(Editora Contexto), pensando sobre "De Onde Vêm Esses Seres?", ao lado de tantos escritores que admiro. 

20 de mai de 2017

talvez comece assim

Luís, prestenção! Tem que virar a cabeça na braçada!

Para o professor de natação, esse era o seu nome, Luís.

Desde a primeira aula. Naquele dia, depois de um instante de hesitação, percebendo que o professor estava falando com ele e que, por algum motivo (que ele nunca se interessou em saber) ele era o tal Luís, ficou sendo.

Luís, Zezinho, Salomão, não fazia a menor diferença. Se arrastava pela piscina só estava lá pra parar de ouvir a mãe repetir que ele tinha que praticar um esporte. Vencido pela falta de autonomia dos seus sete anos, lá estava ele, fazendo o que não queria. Mas ali era outro, e secretamente saboreava o seu pequeno ato de rebeldia.

9 de mai de 2017

portal


(…) Como se entrasse em um templo a céu aberto, ela mergulha nas trilhas sombreadas do parque em busca de silêncio, o silêncio possível dentro da cidade, o som dos carros que passam na via expressa chegando abafados pela cortina de árvores. Enquanto lá fora a vida segue em trânsito, Beatriz entra em outro ritmo, num tempo marcado pelo tique-taque das cigarras, a conversa dos pássaros, o rumor do vento, a eletricidade calma dos insetos. E o que, antes, era uma parada eventual no meio de seu percurso, agora é o lugar-santuário onde ela se recolhe, envolvida pelo perfume verde das cabreúvas, figueiras, tipuanas, jatobás e paineiras, os troncos tatuados com tantos nomes, iniciais e símbolos de amores que talvez já não existam (…*)

(*trecho de uma história que estou escrevendo)


3 de abr de 2017

escrever

debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música. a gente sempre pode esbarrar numa ideia querendo se contar.

6 de mar de 2017

tempo

Às vezes acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse dentro de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, aliso os cabelos longos e logo adormecemos, as duas, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

10 de jan de 2017

janeiro

a calma do dia
atravessa o pensamento
caminho pelas ruas
sem sombra de nuvem
sem arranhão de vento
e penso:
que bom seria
se assim fosse o ano inteiro
esse tempo quente
e quieto e mais lento
dos dias de janeiro

8 de dez de 2016

verão

O frescor da manhã dura pouco. O dia avança com o sol de verão se impondo sem nuances e talvez por isso seja tão difícil escrever: é como se a vida só acontecesse lá fora, elétrica, radiante feito alegria de cigarras, o mundo pulsando, ansioso, chamando pra festa: vem!
No calor das horas, todas as coisas se expõem sem pudor -- ruas, árvores, corpos e humores adquirem contornos exatos ao meio-dia. Mas as palavras se dissolvem, preguiçosas, e adormecem sobre nuvens tênues. Só despertam quando o vento sopra forte anunciando a chegada de nuvens densas, que se concentram, carregadas de energia, trovejando histórias e tempestades.

3 de nov de 2016

trecho

(…) Em algum tempo da infância, acreditei que esperança fosse o nome de um objeto, algo que a gente podia guardar num armário e perder por aí, como um guarda-chuva. Ou quase isso: por algum motivo, na minha imaginação de criança a coisa-esperança parecia ser um objeto maior e mais valioso do que os guarda-chuvas que minha mãe vivia perdendo (…) 
Muitos anos depois, cheguei à conclusão de que a esperança nem é tão diferente assim de um guarda-chuva: e o que mais pra nos proteger e ajudar a seguir em frente durante as tempestades?

4 de out de 2016

casa

Os dias passam enquanto percorro os corredores do supermercado, espero a vez no posto de gasolina, na fila do banco, no balcão da farmácia, e a reunião marcada para as 2 começa às 3 e só engata no assunto às 4. No meio disso tudo, cruzo com tantas distrações, acenando, convidativas, vem, vamos tomar um café, e se a gente fosse ao cinema, é o último dia daquela exposição, só um giro pelo facebook, que mal tem?
Dias assim me levam pra longe, nem sempre consigo voltar.
Estou em casa quando tudo silencia: então ouço a campainha, abro a porta e finalmente me acomodo no sofá, rodeada pelas palavras que vem me visitar.

20 de set de 2016

dicionário imaginário

Casa (s.f) 1. país, cidade, rua ou simplesmente o quarto para onde sempre se quer voltar depois de uma longa ausência; 2. espaço reservado para: botões (das roupas); peças de dama e de xadrez (dos tabuleiros); amigos (do coração); 3. lugar onde geralmente moram a escova de dentes, os livros e os sonhos das pessoas.

3 de set de 2016

bichos

A pressa é como um pernilongo, a agitação ao redor, o zum-zum-zum irritante, querendo sugar uns goles do nosso tempo-sangue. Já a preocupação é o mosquito que ronda, incômodo, persistente; e a desconfiança sempre é a pulga instalada atrás da orelha. Uma dor forte é como uma picada de abelha: vai fundo e direto ao ponto; só passa se conseguirmos extrair seu ferrão. Mas a tristeza é a aranha silenciosa que tece sua teia invisível, um emaranhado de nós que prendem a garganta e apertam o peito da gente.

22 de ago de 2016

infância

Como hoje, era uma manhã escura, e eu, pequena, tinha medo que a noite nunca terminasse. Então me escondia debaixo da coberta, encolhida no meu quarto de filha única, quieta, à espera do bom dia dos pratos e talheres acordando na cozinha, e do perfume forte passando pelo corredor -- mãe e pai: minhas certezas a cada amanhecer.

15 de ago de 2016

pai

espuma de barba
beijo branco
na pele macia

molho de tomate
carinho e cachimbo
no domingo

a montanha mais alta
força e abrigo
na ventania

9 de ago de 2016

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

29 de jul de 2016

nanda

Uma, duas, mil montanhas recortando o céu. Nenhum sol sorridente pairando sobre uma casinha. Nada que se pareça com uma criança de mãos dadas aos garranchos de uma mãe e um pai. Meus primeiros desenhos. É incrível... Já estava tudo ali. Já era eu, uma sementinha de Nanda, as mesmas imagens na cabeça. Por que minha mãe guardou esses desenhos e não outros, eu não sei. Talvez não tivesse outros. Será? Eu não me lembro. Nem disso nem de nada dos meus primeiros anos. Só não é escuridão total por causa das fotografias. Estou lá: um bebê no colo da minha mãe, com 1 ano, 2, depois 3, eu, cercada de brinquedos, pendurada no cangote do meu pai, com todos os avós, uma menininha simpática, cachinhos castanhos, boca, nariz, dois olhos azuis. Tudo no lugar. Pena não lembrar de nada dessa época, aparentemente estava dando tudo certo. As coisas entortaram um pouco antes do meu quarto aniversário (…).

início da história de Nanda, uma das personagens de "E no Fim... Tudo Recomeça de Outro Jeito", livro novo chegando logo, logo, com ilustrações lindas de Nobru, com o selo Moderna.

19 de jul de 2016

sofia


(…) Não acontece mais. Antigamente, eu olhava pro céu e via a Lu brincando no meio das nuvens, fugindo de um grande dinossauro que se aproximava, descansando em cima de uma nuvem-rede, às vezes até fazendo careta pra mim. Era lindo, chegava a doer de tão lindo e de tanta saudade. Agora é diferente. É só um vazio. Uma saudade triste, como uma nuvem cinza com vontade de chorar. Descobri que o tempo tem esse poder meio mágico de decantar as coisas; é como se aquela dor tão pesada tivesse descido devagarinho até se acomodar e adormecer no fundo do coração. De vez em quando, a dor acorda. Nesses dias, olho pro céu, procuro por ela, mas não acontece mais. Mesmo assim, eu sei que a Lu tá lá, escondida atrás de uma nuvem gigantesca, desmanchando aos poucos, disfarçada entre uma, duas, mil montanhas recortando o céu.

trecho da história de Sofia, uma das personagens de "E no Fim... Tudo Recomeça de Outro Jeito", livro novo chegando logo, logo, com ilustrações lindas de Nobru, com o selo Moderna.